ergo sum

Demoro lenta e suave a ver-te fugir.

Estou aqui
a ser a tua ausência.

remorso matado

Hoje
chegada
falo a verdade que ontem aldrabei
o remorso morreu na contrição da razão.

Post-Scriptum

Se não vieres
manda embora os dias, por favor
rasga as águas.

[ na delonga da devolução ]

Ardem no sal os meus membros
enquanto a devolução espera
o prazo dos sujeitos desalmados
manda embora os dias, por favor

quero nadar sem dor
quando nado
quando o mar és tu. Apenas tu.

Recado

O silêncio arrecada-me assim,
quando sem que saibas
a maré me devolve a ti
e tudo recomeça nos teus braços.

[ quando o mar és tu. Apenas tu. ]

A música devolve-te
neste modo de respirar,
quando canto,
quando não te alcanço os lábios.

O silêncio arrecada-me
neste modo de respirar,
quando nado,
quando o mar és tu. Apenas tu.

[ resumo ]





os dias são amenos quando chego ao fundo das palavras, colo duas escrituras nossas,
num resumo,
sou grata por estares nelas comigo,
feliz aniversário, comadre

abandonos

Frente a cada livro cifrei-me

procurávamos a felicidade
num lugar comum com coisas
pequeninas toadas adoradas
tolhemos a razão

sentidos da mendigagem.

(No que de precioso tem a minha memória )


Valdevina
A morte insurge-se
Maior que o amor
Nada se assemelha a um grito
Eu sem a avó
batendo os pés violentamente no soalho
recolher-me-ei
magoada na própria velocidade
.



Quero a avó velhinha

Quero a minha avó velhinha a colher-me
Quero aqui e agora o amor
Exijo o regresso das suas mãos

Que equívoco é este? Recuso a morte do amor.
Que sentido tem que o regaço seja indefeso da morte?



Contra o esquecimento esgravato a terra
No que de precioso tem a minha memória
Luto contra a brutalidade dos dias
Ausentes em vida.



A vida não podia ter sido mais forte que nós.

itálicos, refª à Marta
originalmente publicado ali